A Biologia da Pornografia: Parte 2

Para percebermos como a pornografia pode ser viciante e causar dependência, é importante conhecer o funcionamento do sistema de recompensas do nosso cérebro. Todas as dependências - sejam de substâncias (drogas), ou de comportamentos (jogo), influenciam diretamente este circuito. 

slide-9.gif

O circuito de recompensas influencia o nosso humor, emoções, intervém nas paixões e em processos de decisão. É ele que nos motiva a perseguir objetivos, e a procurar soluções para satisfazer necessidades.

De forma simples, o circuito de recompensas:

  1. Ajuda-nos a evitar dor física e emocional

  2. Leva-nos a procurar prazer e novidade.

Estamos moldados de forma a procurar novidade porque é esse aspeto da nossa natureza que nos incentiva a sermos curiosos, a procurar novos territórios, novas formas de sustento, e novos relacionamentos - e isso é bom!

Dopamina: O Poder do Circuito de Recompensas

A dopamina é um dos principais neuroquímicos que atuam no nosso sistema de recompensas. É o neuroquímico do desejo. De forma simples, um bocado de dopamina diz-nos “Eu tenho de ter isso, não importa o que isso seja, e rápido!”.

Se pensares no circuito de recompensas como um motor, a dopamina é o combustível. Quanto mais dopamina, mais vais querer, desejar e procurar.

É importante reconhecer que a dopamina está relacionada com o querer, desejar e procurar - NÃO com o prazer e com o sentir-se bem. Ela é libertada pelo cérebro em antecipação de uma recompensa, e não quando ela é obtida.

Há muitos outros neuroquímicos libertados pelo cérebro quando obtemos aquilo que procuramos, e esses dão-nos prazer e satisfação. Estes neuroquímicos mantêm-nos temporariamente satisfeitos após uma boa refeição, um grande golo de água, ou um orgasmo.

Mas a parte interessante é que o nosso sistema onde atua a dopamina é mais forte que o sistema dos opióides (estes sim, fazem-nos sentir prazer). Procuramos sempre mais do que estamos satisfeitos porque procurar e fazer alguma coisa é mais vantajoso para a nossa sobrevivência, do que estar sentados sem fazer nada.

Por causa disto, estímulos que nos dão uma grande libertação de dopamina (como açúcares e gorduras) podem passar por cima das nossas sensações de estarmos satisfeitos, e levar-nos a comer mais uma sobremesa, mesmo depois de estarmos completamente cheios.

Todas as substâncias e atividades potencialmente causadoras de dependência aumentam os níveis de dopamina no sistema de recompensas. Cocaína, álcool, nicotina - todos parecem diferentes porque atingem diferentes neurotransmissores, mas todos estimulam o sistema de recompensas a libertar dopamina. As drogas influenciam os circuitos e mecanismos que evoluíram a partir de recompensas normais, de forma artificial; o uso contínuo de pornografia também afeta o circuito de recompensa do cérebro, e aproveita-se do seu aspeto moldável e da nossa capacidade de aprendizagem para o fazer.

Pornografia é um super quê?


Os estímulos sexuais produzem os níveis mais elevados de dopamina do que qualquer outro reforço natural. Ou seja, por si só, o ser humano tem um mecanismo natural forte na sua sexualidade.

A libertação da dopamina aumenta com o factor novidade: um carro novo, um filme novo, um gadget recente.

O que é que é acessível, incentiva a procura, e tem sempre um factor de novidade?

BINGO! A Pornografia online!

A pornografia online encerra em si as características essenciais para ultrapassar barreiras biológicas e circunstanciais, e nos oferecer uma descarga de dopamina maior e mais prolongada, contribuindo para uma “explosão de sensações” - torna-se um super-estímulo. Nela entram diversas emoções ou sensações, como ansiedade, curiosidade, surpresa, choque, e procura constante.

A pornografia pré-internet era mais inofensiva, no sentido em que raramente conseguia competir com os parceiros reais. Existia sempre alguma desvantagem associada ao seu consumo, fosse na dificuldade do acesso, ou no tipo de pornografia (imagens estáticas).

Hoje não é surpreendente a quantidade de pessoas que considera retirar mais prazer de uma sessão de pornografia do que de parceiros reais. A pornografia online constitui um “super-estímulo”, e como tal, apresenta alguns perigos reais. A indústria pornográfica está atenta às “necessidades” dos consumidores, e como tal, pretende sempre oferecer o maior número de sensações possível para ajudar a atrair pessoas (robôs sexuais, realidade virtual, gadgets que imitam sensações físicas, etc.).

Gary Wilson menciona alguns dos perigos da pornografia online, enquanto super-estímulo:

  • existe o perigo do nosso sistema primitivo registar os novos prazeres e sensações como algo valioso (assim como os nossos antepassados registavam outros estímulos como importantes, para a sua sobrevivência);

  • está disponível em quantidades ilimitadas (não encontrado na Natureza);

  • tem grande diversidade/variedade (efeito novidade);

  • [a pornografia] é consumida de forma crónica.

Em suma, algo importante a notar é que a mensagem da pornografia enquanto estímulo no sistema de recompensas não é “satisfação”, mas “procura mais um pouco que vais conseguir encontrar satisfação!”. E esta, é impossível de acontecer, como veremos na próxima parte deste artigo.